O homem integral – 18

Os comportamentos neuróticos

 

Produtos do inconsciente profundo, a se manifestarem como comportamentos neuróticos, os fatores psicogênicos têm suas raízes na conduta do próprio paciente em reencarnações passadas, nas quais se desarmonizou interiormente. Fosse mediante conflitos de consciência ou resultados de ações ig­nóbeis, os mecanismos propiciadores de reabilitação íntima imprimem no inconsciente atual as matrizes que se exteriori­zam como dissociações e fragmentações da personalidade, alucinações, neuroses e psicoses.

Ínsitas no indivíduo, essas causas endógenas se associam às outras, de natureza exógena, tornando-se desagregadoras da individualidade vitimada pelas pressões que experimenta.

As pressões de qualquer natureza são decisivas para esta­belecer o clima comportamental da criatura.

Por formação antropológica, em luta renhida contra os fatores compressivos e adversários, o homem aspira pela liberdade. Todos os seus esforços convergem para uma atitu­de, uma atuação, um movimento, livres de empeços, de de­tenções, de aprisionamento.

As pressões que lhe limitam os espaços emocionais e fí­sicos aturdem-no, dando margem a evasões, agressividade, disfarces e violências, através dos quais tenta escamotear o seu estado real. Isto, quando não tomba na depressão, no pes­simismo.

Vivendo sob estímulos, faculta-os à sociedade, que pro­gride e age conforme as energias que os constituem.

Quando estes estímulos são emuladores à felicidade, eis o homem atuante e encorajado, trabalhando pelo progresso próprio e geral, mediante um comportamento otimista. No sentido oposto, quase nunca se motiva à reação, para ascen­der aos sentimentos ideais que promovem a vida, libertando-se das constrições naturalmente transitórias.

Equivocado quanto aos referenciais da existência, deixa-se imbuir pelas sensações da posse, do prazer fugidio, caindo em depressões, seja pela constituição psicológica fragmentá­ria ou porque estabelece como condição de triunfo a aquisi­ção das coisas que se podem amealhar e perdem o valor, quan­do se não possui o essencial, que é a capacidade de adminis­trá-las, não se lhes submetendo ao jugo enganoso.

Assim, apresentam-se os que se crêem infelizes porque não têm e os que se fazem desditosos porque tendo, não se contentam face à ausência da plenitude interior.

O mito da ambição do rei Midas, que tudo quanto tocava se convertia em ouro, causa da sua felicidade e desgraça, tem atualidade no comportamento neurótico dos possuidores-pos­suídos.

A experiência, no entanto, fazendo a pessoa aprofundar-se na consciência dos valores, altera-lhe o campo de compre­ensão, favorecendo o entesouramento do equilíbrio. Todavia, tal ocorrência é resultado da luta que deve ser travada sem cessar.

Assim, a saúde psicológica decorre da autoconsciência, da libertação íntima e da visão correta que se deve manter a respeito da vida, das suas necessidades éticas, emocionais e humanas.

O comportamento neurótico, assustador e predominante na sociedade consumista, procura esconder o desajuste e as fobias do homem contemporâneo, que se afunda em meca­nismos patológicos.

Receando ser ele mesmo, torna-se pessoa-espelho a re­fletir as conveniências dos outros, ou homem-parede a reagir contra todas as vibrações que lhe são dirigidas, antes de as examinar.

“Agredir antes, evitando ser agredido” é a filosotia dos fracos, fechando-se no círculo apertado dos receios e da não aceitação dos outros, forma neurótica de ocultar a não aceita­ção de si mesmo.

São raros aqueles que preferem ser homens-pontes, colo­cados entre extremos para ajudarem, facilitarem o trânsito, socorrerem nos abismos existenciais…

O espírito de competição neurotizante vigente e estabele­cido como fomentador das riquezas, deve ceder lugar ao de cooperação, responsável pela solidariedade e pela paz, hu­manizando a sociedade e tornando a pessoa bem identifica­da.

Competir não é negativo, desde que tenha por meta pro­gredir, e não vencer os outros; porém, superar-se cada vez mais, desenvolvendo capacidades latentes e novas na indivi­dualidade.

Competir, todavia, para derrubar quem está à frente, em cima, é atitude neurótica, inconformista, invejosa, que abre brecha àquele que vem atrás e repetirá a façanha em relação ao aparente vencedor atual. Tal atitude responde pela insegurança que domina em todas as áreas do relacionamen­to social.

Da mesma forma, deixar-se viver sem aventurar-se, no bom sentido do termo, como se transitasse em um sonho cu­jos acontecimentos inevitáveis se dão sem qualquer ingerên­cia da pessoa, é uma atitude patológica, irracional, em se con­siderando a capacidade de discernimento e a de realização que caracteriza a criatura humana.

O homem-ação de equilíbrio gera os fatores do próprio desenvolvimento, abandonando o conformismo neurótico, a fim de comandar o destino sempre maleável a injunções no­vas e motivadoras.

Os seres humanos têm as suas matrizes em a natureza, com a qual devem manter um relacionamento saudável, ao invés de evitá-la. Sendo partes integrantes da mesma, não se devem alienar, antes buscar-lhe a cooperação e auxiliá-la num intercâmbio de energias vigorosas, com o que sairão da gaio­la particular onde se ocultam e se acautelam.

Há personalidades neuróticas que a temem, receosas de serem absorvidas pela sua grandiosidade e dando às suas ex­pressões — céus, montanhas, mares, florestas, etc. — determi­nados tipos de projeções humanas, poderosas e devoradoras. Assim, anulam-na, matando-a no seu consciente através da negação da sua necessidade.

Os comportamentos neuróticos são desgastantes, extra­polando os limites das resistências orgânicas, que passam a somatizá-los, abrindo campo para várias enfermidades que poderiam ser evitadas.


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